O termo vem do grego Heúreka, do verbo "achar", "descobrir".
Essa era a palavra que nomeava o retiro religioso da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, ao lado do Colégio Agostiniano onde iniciei meus estudos.
Fiz o Jardim de infância no prédio "novo", que já foi demolido e erguido o prédio atual. Minha primeira professora se chamava Alice, doce e carinhosa.
Ao passar dos anos, ali no Colégio fiz amigos que carrego até hoje, com bastante carinho e respeito. Fui muito bem tratado e cuidado ali. Lembro da minha professora de geografia, Carmen. Mesmo nome da minha mãe. Do Padre Cesar, espanhol, que de cisudo, só tinha a cara. Um coração gigante.
A Igreja contigua ao colégio é linda. Fiz minha primeira comunhão, crisma e participei do encontro de jovens JoCricre - Jovens Cristãos Crescendo.
Minha adolescência foi nesse ambiente. Mas não impediu todas as interperies da oscilação de hormônios dessa fase. Todas as dúvidas e incertezas que as novas percepções da vida nos trazem. Para mim, foi um período emblemático. Para não dizer: foda! Hoje esse termo (na minha época era palavrão) é visto como um mantra, um escape das adversidades. Como disse, foda naquela época era foda=difícil=complicado.
Apesar de frequentar uma escola católica, gerida por um padre linha dura, havia muita chance para o errado (o caminho errado). Isso sempre existiu e sempre vai existir.
Para um jovem, por mais que tenha uma boa base famíliar, religiosa e escolar, a tentação é grande. A oferta é grande. As possibilidades são grandes.
Saber se abster é complicado.
Essa complicação também vinha de casa, lidar com personalidades fortes dentro de casa é desafiador. No sentido de: é foda (do jeito antigo).
Foi uma época que eu comecei a me posicionar, questionar e inclusive me atrever. E desde então, não deixei de faze-lo, hoje a vivência e burrencia (no sentido burro de viver) tento me conter mais nas palavras, nem sempre sou tão sereno, mas sincero sempre!
Essas minhas novas observações da vida me levaram a grandes conflitos com meu pai. Esse é um capítulo, ou um livro a parte, do tipo: superando A Odisseia de Homero, que durou 10 anos, até agora nas minhas contas, mais de 4 décadas!
Mas vamos voltar aos fatos, estava em um dia normal de aula, sentado na minha carteira preferida, encostada na parede da janela, propositalmente a 3 ou 4 carteiras atrás. Me aparece uma colega de outra turma, na janelinha da porta; para e olha diretamente a mim. Pede licença ao japones, professor de física e me chama lá fora. A proposta: passar o fim de semana com uma turma da escola. A princípio eu só entendi que eu teria paz naquele fim de semana. Ela me explicando que era um retiro de jovens, que estariamos isolados durante aqueles dias e sem contato com a família. Eu só entendi as palavras: 'Isolado' e 'longe da familia'. Pronto, era a deixa que eu precisava. Um fim de semana de paz.
Detalhe, esse retiro já vinha sendo preparado a semanas, candidatos foram preteridos na seleção. Na manhã de sexta feira, véspera matutina do início, alguém desistiu e sobrava então uma única vaga. Pena eu não conseguir lembrar o nome dessa colega, que foi encarregada de encontrar um substituto.
Na minha pequenes física e juvenil, o corredor de acesso as salas de aula, era gigante, kilometrico e com centenas de portas das salas. As portas tinham janelinhas, que segundo nós, os alunos, só serviam para o Pe. Cesar vigiar a gente.
Nesse dia, serviu para eu ser visto. Eu digo que Jesus usou os olhos da minha colega (que me convidou) para me ver.
Convite aceito, sem pestanejar, sem medo de reprovação, meio desafiando a contraproducente relação que eu estava vivendo em casa. Tudo que eu esperava é alguns momentos de paz.
Eu recebi muito mais.
Recebi o amor de Deus em minha vida.
Sabe aquele amor que vc 'só ouve falar'. Entao.
Agora eu tinha em mim.
A cada palestra, cada roda de conversa. Isso foi se abrindo a mim.
Não foi uma tarefa fácil, eu estava muito magoado, muito doído.
A casca estava muito grossa.
Na noite de sábado, durante as orações na pequena capela, eu chorei.
Desde o início, vi muitos colegas emocionados, vivendo aquilo intensamente. Eu não.
Para mim, foi um processo. Fui descamando.
Como uma cebola, na camada certa e certeira eu chorei.
Chorei o que precisava chorar, desabafar.
Isso para mim, foi um milagre. Ali, entendi e senti o amor de Deus por mim.
Eu podia, então, sentir de verdade o que eu 'só ouvia falar'.
Hoje, vendo meus filhos participando de um retiro de jovens, me emociona de mais.
Eu vivi para ver eles vivendo isso.
Entendo que a 'fome' hoje é outra, graças a Deus.
O que não diminui a sua importância.
Será que meus pais sabiam das dores e 'fomes' que eu tinha naquela época?
Creio que sim.
Me ponho a pensar nisso, eu estou a par dos desafios que eles enfrentam hoje?
Uma coisa posso dizer, a minha separação da mãe deles, mexeu muito com todos nós.
A dimensão do real impacto da minha ausência naquele nucleo.
Sabe aquele aviso no avião: "máscaras cairão sobre suas cabeças". Então, a instrução principal é: " coloque em você primeiro, depois ajude alguém".
Eu precisava posicionar a minha máscara.
Me fazer inteiro.
Estar vivo.
Estar forte.
Para então, ter condições de cuidar de alguém.
Assim foi o Eureka, eu precisei cuidar de mim.
Fui acolhido no amor eterno, na fraternidade com os colegas e no amparo da equipe organizadora.
A partir do Eureka, a minha relação comigo mesmo melhorou e consequentemente com a família, os amigos e também o desempenho escolar.
Minha bisa Piedade, que merece um capítulo só dela, nos ensinou muito das orações que faço até hoje. Despertando e nós, a fé cristã.
O Eureka foi o acordar nela!