domingo, 25 de outubro de 2026

Sofá no fim de ano

Eu tinha uma loja nos idos 1990.. Movani Móveis. Meu tio Agnaldo deu a ideia do nome, juntava Móveis e Giovanni. Alugamos uma casa velha na Av Senador Jaime, desmachamos e construimos a loja. Tinha uns 80m² nada para colocar lá dentro. Nada mesmo. 
Como meus tios de sangue tinham várias lojas de móveis para escritório na mesma rua e quadras eu recebi ajuda mesmo do meu tio Tavares (casado com minha tia , de sangue, Alba). Sim, foi aquele não cossanguineo, o único a me emprestar algum mobiliário para colocar na loja. Esse mesmo tio me deu a dica dos fabricantes de cadeiras e estantes de aço. Produtos de rápido giro e péssima margem. Aloja foi aberta em outubro, vendas irrisórias e despesas ainda bancadas pelo meu pai. Quando em novembro, meu tio Donato me sugeriu vender sofá, item bem vendido bom período natalino. Gostei da ideia. Chamei o Apolinário, antigo tapeceiro do meu pai e contratei a fabricação de 30 jogos de sofá. Comprei madeiras na Madeireira Lisboa do meu grande amigo Zenha. Tecidos e espumas da Coplastico. Tudo com cheque pre-datado. Essa era uma modalidade de financiamento. Usava-se cheque, o banco emitia um talão de 20 folhas onde vc escrevia o valor e assinava, ou seja um título ao portador. Nele se anotava no canto inferior esquerdo a data que deveria ser levado a compensação. Sem validade jurídica, mas que valia uma combinação mais que verbal. 
Assim, compravamos o que precisasse e paga só depois, desde que vendesse antes do vencimento do cheque. Se não, sem saldo na conta, o cheque voltava sem fundos. 
Faltava uma semana para o Natal e eu não tinha vendido nada, falei pro Apolinário, para de fazer sofá, que o rombo vai ser grande. 
Na terça de manhã, fui na novena do Perpétuo Socorro na igreja Matriz de Campinas, pedindo muito a Nossa Senhora que me ajudasse nessa campanha. Isso iria me quebrar como empresa. Rezei com muito afinco, coloquei nas mãos de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. 
Ao voltar para a loja, meu funcionário me avisa: acabei de vender dois jogos de sofá. E assim foi a semana, na noite de Natal fiz entregas até às 20:00 da noite. Ao chegar em casa naquela noite, minha vó paterna já estava lá. Eu estava uma pilha, cansado e eufórico.. Recebi a orientação de: "- toma um banho quentinho, com calma". Você já fez o que tinha que te feito, já está tudo bem. Descansa. 
Era o que eu precisava ouvir naquele momento. 
Obrigado vó Dalva

A ajuda grátis

Não lembro o ano, meu pai tinha loja de móveis, na 24 de outubro e já pensava em trocar de área. Ele já tinha transitado por várias atividades, uma delas é a fábrica de TV. Isso mesmo, ele comprou a marca Colorado RQ, a primeira TV a cores do Brasil. Depois crio um post sobre esse assunto, contado por ele.
E com essa proximidade a eletrodomésticos, na época, o grande boom da linha branca eram os Tanquinhos. Maquinas de lavar roupa de mecanismo simples que 'faz o grosso' da lavanderia. 
Meu pai já pensava em fechar a loja e me incubiu de fazer os tanquinhos. Peguei um projeto totalmente inviável, apesar de ser sustentável e de reaproveitamento de material considerado sucata pela indústria metalúrgica. Pretendia usar retalho de chapas lisas e dobradas. O que se mostrou um desafio técnico e estético. Desafio foi pouco, ficou horrível. Como eu nao tinha ferramentas, pega emprestado do Willian, filho falecido do mecânico Amarante. Que a muito contragosto emprestava as suas ferramentas, eu tinha um contraponto gigantesco, meu outro vizinho Etevaldo. Esse senhor tinha uma metalurgica completa, fabricava guindastes para caminhões, com uma torneadora completaça. Seu filho André o ajudava nesse tempo. Pessoas boníssimas. Etevaldo me ajudou bastante, me emprestando ferramentas, botijão de gás oxigênio, me ensinou a soldar com eletrodos, mig e até mesmo com carbureto. Solda a carbureto, vc precisa de um cilindro ermetico, onde vc coloca pedras de carbureto em água que gera o gás, responsável pela chama que faz a solda. O projeto do tanquinho era de uma estrutura de cantoneiras, sobra de produção da Ferrobraz e chapas de aço arrebatadas. Totalmente uma furada. Seu Etevaldo me falou, porque usar essa estrutura se vc pode encomendar as chapas cortadas e dobradas diretamente da Ferrobraz e só pontear (soldar) a emenda. A ideia de mudou tudo! Ficou esteticamente lindo, funcional, rápido e efetivo. O tanque, onde vai a água para bater a roupa nos fazíamos de fibra de vidro. Dava uma trabalheira danada, Etevaldo me falou que uma adaptação para a furadeira que transformava em máquina de pulverizar a fibra de vidro na forma. Assim fui rompendo. Desde a estrutura, fábricação, pintura e montagem, teve o dedo do Etevaldo. Considero que ele teve sabedoria e paciência para me ajudar. Em contrapartida, meu pai só trazia ideia vazia e críticas. Acho que ele vivia um período conturbado, que apos 30 e tantos anos não passou. 
Hoje, 25/10/26 perdemos o Etevaldo. Foi-se um homem bom. Sou muito grato ao Tetê e a Lurdinha por todo ensinamento. Etevaldo, vulgo Tetê tinha sua mesa cativa no boteco da esquina. Vai-se um bom homem, muito obrigado Etevaldo por tudo. Deus o recebe em seus braços nesse instante. Muito a falar sobre Etevaldo, quem sabe num próximo post.